terça-feira, 20 de agosto de 2013

Debaixo de algum céu


Nuno Camarneiro surpreende pela capacidade de análise das pessoas, que o seu romance espelha de forma inquestionável, através de uma sólida e coerente construção de personagens que se movimentam e interagem num espaço/tempo ficcionado mas que se percebe ser absolutamente familiar ao autor, o que lhes dá ainda maior densidade e torna mais verossímeis as suas histórias, entrecortadas por breves reflexões sobre as pessoas e a vida:

"A vida dos homens estica e encolhe, enche-se de rugas, pregas no espaço e no tempo, no que pensamos ou sentimos. Quando uma parte das vidas se encontra com outra, dizemos que lembramos, ou sonhamos ou revivemos.Quando se encontra com a vida de outra pessoa, chamamos-lhe coincidência ou sorte."

quarta-feira, 12 de junho de 2013

E o céu aqui tão perto:diálogo entre Ciência e Literatura

No campo da descoberta literária, o diálogo entre Ciência e Literatura não terá sido tão estreito e profícuo como era nossa intenção mas houve muito trabalho, algumas descobertas, os alunos sentiram-se parte integrante de um projeto e, principalmente, ficaram com vontade de continuar no próximo ano letivo.
Na "despedida", pedimos que registassem as suas opiniões num painel que ficou em exposição, juntamente com alguns trabalhos, na BECRE.


sábado, 8 de junho de 2013

Nuno Camarneiro: o diálogo entre Ciência e Literatura


A presença do autor da obra "Debaixo de algum Céu", prémio Leya 2012, na biblioteca da ESBF significou o culminar de um conjunto de atividades que integraram o projeto "E o céu aqui tão perto: diálogo entre Ciência e Literatura", subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, desenvolvidas por alunos de duas turmas do 10º ano.
De louvar a disponibilidade e a facilidade de Nuno Camarneiro em comunicar com os alunos, partilhando as suas experiências e os seus sucessos, ao mesmo tempo que os incentivava a ler, escrever e sobretudo a viver com projetos mas sem abdicar da imaginação, tão necessária para construir os mundos à medida de cada um e para o qual a literatura é um instrumento imprescindível.
Autor de dois romances e de um blog,onde publica algumas micronarrativas  e satisfaz de forma mais imediata a sua pulsão para a escrita, Nuno Camarneiro assume-se como um curioso - condição suprema do cientista e do escritor - sempre numa intensa atividade de busca de respostas para todas as questões que a vida nos coloca.

“A ilusão da continuidade alimenta-se de um corpo em que os braços e as pernas se contam pelo mesmo número. O cérebro conta um mais um e deita-se para  dormir, mas é difícil deitar contas à cabeça feita de tantas partes.” , Debaixo de algum Céu, p. 16

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Permutas - Escrita criativa


O exercício proposto aos alunos do 9º. 4 consistiu na modificação de um texto através da substituição de certas palavras ou grupos de palavras, por outras /os com o mesmo sentido, podendo proceder às alterações consideradas necessárias.  
Apresenta-se aqui um dos trabalhos realizados pelos alunos.


Na sala de estar, ao mesmo tempo de jantar, havia um sofá de pelúcia vermelha, por detrás da mesa. Não era comparável ao da sala de visitas, não só por não ser azul celeste, mas também por não estar em vários sítios puído e desbotado. Nele, os avós sentavam-se lado a lado, e não havia refeição em que não me saltasse à vista como era baixa a avó e alto o avô. Eu empoleirava-me numa cadeira, elevada por duas almofadas. Depois da refeição terminada, o avô punha um barretinho na cabeça e rezava, as mãos no colo, uma em cima da outra. Em seguida, tirava-me da cadeira, aconchegava-me entre os joelhos e pousava-me a mão direita sobre a cabeça. Era assim que me abençoava dia após dia, e sempre com a mesma calma, a mesma solenidade, o mesmo amor.   Embora o costume da avó fosse ter pressa e não se deixar um momento desocupada, nunca se levantava antes de o avô me ter abençoado. Só então corria de cá para lá e de lá para cá. Era o momento propício para o avô e eu nos divertirmos. Aliados, unha com carne, tínhamos a avó como inimigo comum. Gatinhávamos no chão e brincávamos aos cavalinhos.  Se a avó voltava inesperadamente e nos apanhava em flagrante, desmanchava o nosso prazer, porque o avô tinha de ouvir coisas feias como:
Desperdiças o tempo do Senhor. E ainda por cima, amimalhas a menina.”                
                                                                                      Ilse Losa, O Mundo em que Vivi

Na sala de estar, na hora de jantar, havia um sofá de pelo  encarnado, por detrás da mesa. Não era semelhante ao da sala de visitas, não só por não ser azul do céu, mas também por não estar em vários sítios desgastado e desvanecido. Nele, os avós sentavam-se lado a lado, e não havia refeição em que não reparasse como era baixa a avó e alto o avô. Eu subia para  uma cadeira, elevada por duas almofadas. Depois da refeição chegar ao fim, o avô punha um barretinho na cabeça e orava, as mãos nas pernas, uma sobreposta à outra. Depois,  tirava-me da cadeira, acomodava-me entre os joelhos e colocava-me a mão direita sobre a cabeça. Era assim que me favorecia todos os dias, e sempre com a mesma tranquilidade, a mesma solenidade, o mesmo amor.      Ainda que o  costume da avó fosse ser apressada e não se deixar um momento quieta, nunca se levantava antes de o avô me ter abençoado. Só então corria de um lado para o outro. Era o momento favorável para o avô e eu nos entretermos. Companheiros, muito unidos, tínhamos a avó como nossa adversária. Andávamos de gatas no chão e saltávamos.”                          
                                                                                                           Mónica, Leonel, Marta

terça-feira, 28 de maio de 2013

Coser


A proposta de exercício de escrita criativa que foi apresentada aos alunos do 9º. 5 consistia em ligar duas partes de um dado texto. Apresentamos o melhor trabalho:


Entrei pela porta de um livro e fechei-me lá dentro com as palavras acesas e as luzes apagadas. A minha mãe deu voltas à casa à minha procura. “Onde é que o miúdo se terá metido?” Com medo de ser encontrado, eu saltava das páginas pares para as ímpares e enrodilhava-me, feito bicho-de-conta, entre dois parêntesis ou, por ser muito magro, atrás de um ponto de exclamação. Era a primeira vez na minha vida que eu me fechava dentro de um livro. (…)
            O livro era agora o meu refúgio e a minha casa, uma casa onde tudo era imprevisível e estranho e onde as letras tinham espessura e cheiro como se fossem humanas. Confesso que me perdi lá dentro …
                    Por um lado, estava contente pois conseguira esconder-me da minha família, mas por outro lado, estava com medo e precisava de um abraço da minha mãe, ou então não, acho que o brilho daquelas palavras me confortava e me dizia: “não tenhas medo, connosco estás seguro”.
Depois as letras e as páginas começaram a fazer-me rir: sentava-me no traço horizontal do A, fazia o (O) de baloiço, o E virava-se ao contrário e servia de banco e as páginas serviam de escorrega, mas … 
Joana, Sara, Fábio, Tiago

           Eu entrara inadvertidamente naquele livro, mais pelo prazer da aventura do que pelo da leitura. Queria fazer uma partida à família e aquela pareceu-me ser a forma mais engenhosa e eficaz. Agora estava perdido dentro de um livro e não conseguia encontrar a porta que me devolvesse ao pequeno mundo do exterior onde estavam os brinquedos, os trabalhos de casa, os bichos-da-seda, os cromos do futebol e a minha fantástica coleção de conchas.
                                                                                                 José Jorge Letria, A mão esquerda de Cervantes

Expansão de texto - 2

De preto dos pés à cabeça, Narcisa afirmava que a culpada da morte do marido não tinha sido nada a gripe, onde é que já se vira uma gripe matar uma pessoa, ainda se fosse a pneumónica ou a espanhola ou a asiática, agora uma gripezita de cacaracá, que nem febre dera. Aquilo, dizia Narcisa, tinha sido do desgosto, da humilhação, do escândalo.
- Coitadinho, nunca mais foi o mesmo.
Mademoiselle Nadine Fabre não estava a perceber nada, e esperou pela explicação, por algum desabafo, que lá acabou por vir, com muitas fungadelas e muitos “coitadinhos” pelo meio.


… - Pois, lá morreu o coitadinho! Terá sido do desgosto do seu Sporting não conseguir ganhar um jogo esta época? – perguntava a Mademoiselle.
- Que não! – replicou Narcisa. Tinha passado a noite ao relento para poder votar nas eleições. O tempo estava chuvoso e só levou um casaquinho.
- Coitadinho!
E continuou a viúva:
- Até me disse que só tinha comido uma bifana e um couratozito e nem tinha bebido uma mini, porque estava muito frio. Quando chegou a casa vinha a tiritar de constipação, a pingar do nariz e os olhos chorosos. Nunca mais recuperou. Mas não percebi se foi da derrota do Sporting se foi da derrota do seu candidato.
- Coitadinho!
- Paz à sua alma!
- E era tão boa pessoa! Ultimamente, já só me espancava duas vezes por semana, se as derrotas não se acumulassem…
E continuava Narcisa:
- Os filhos raramente o viam, mas isso era apenas porque não o procuravam na tasca cá do bairro. Coitadinho!
Era o seu refúgio. Onde afogava (no verdadeiro sentido da palavra) as suas tristezas, a sua vida de sofrimento, o seu mísero ordenado – que poupava, quase fanaticamente – para restabelecer-se diariamente do seu árduo e cansativo trabalho de inspector de obras da nossa Junta de Freguesia, na qual acumulava o cargo de vereador do urbanismo – no entanto, sem qualquer remuneração devido à falência financeira da autarquia, já que o tesoureiro fugiu com todas as economias para o Brasil e instalou-se em Copacabana.
Coitadinho!
E eram tão amigos! Os dois contribuíam, em grande parte, para o desenvolvimento do comércio local – assim se explica a plantação de dez hectares de tremoço e a instalação, por parte da Sociedade Central de Cervejas, de uma nova fábrica produtora de levedura de cerveja nas margens do nosso frondoso rio que passou a disponibilizar a mais pura água para o mais adorável dos sabores.
Coitadinho! Pouco gozou dos meses seguintes à inauguração. Lá ficaram litros e litros por beber!
Só espero que lá onde ele esteja não passe sede! Coitadinho! – disse Narcisa, num choro sufocado de agonia. 
                                      Severiano Pinhão (Professor de Português do 9º 3)

Expansão de texto

O professor de Português da turma 3 do 9º ano elaborou as suas propostas de "expansão de texto", enquanto os seus alunos tentavam responder ao exercício de escrita criativa que lhes fora solicitado. A grande diferença, para além da qualidade dos textos, foi o facto do docente ter demorado a redigir dois textos o mesmo tempo que os alunos levaram a escrever apenas um texto e muito mais curto
.
Eu, que sou a interessada, raramente abro a boca. Porque a verdade é que não sei muito bem o que responder. Não se pode dizer que tenha grande vocação para o trabalho, essa é que é essa. Quando eu era pequena, nunca tive aqueles sonhos que todos os miúdos têm de quererem ser bombeiros, astronautas, sei lá que mais.
O meu único sonho, nestes anos todos, foi sempre acabar a escola o mais rapidamente possível (…).
As minhas colegas querem ser modelos, jornalistas de televisão, bailarinas do Big Show Sic, nadadoras salvadoras como nas Marés Vivas, actrizes de telenovela (…).
Quando eu era mais miúda, sonhava com um navio branco a deitar nuvens de fumo lá nos confins do mar, e embarcar nele para destinos de estranhos nomes, a Sildávia, por exemplo, que eu conhecia dos livros do Tintim, ou o Egipto, onde haveria de encontrar Radamés e apaixonar-me por ele até à morte como a escrava Aída.
Depois cresci e comecei a pensar…

… Porque não ser cabeleireira ou motorista de camião?!
Se crescesse muito e me tornasse bela e deslumbrante talvez optasse por ser motorista de camião, para poder ser eu a meter-me com outros condutores.
Se a minha beleza estivesse guardada para os meus filhos, então tentaria ser uma humilde cabeleireira, com estabelecimento lá no bairro.
Começaria por frequentar um curso profissional, já que ando há quatro anos para concluir o nono, mas a Matemática, a Física e as Ciências proíbem-me outros voos.
Se tiver sorte, pode ser que o talhante da minha rua me peça namoro. E se casarmos, teremos sempre a possibilidade de termos carninha fresca à nossa mesa.
No fundo, só espero ser feliz com os cabelos dos outros nas mãos, ou com elas a segurar um volante.
Viajar sempre foi o sonho da minha vida!
Mas nunca viajaria por auto-estradas. As estradas secundárias, municipais têm muito mais encanto, mais segredos a desvendar. Caminhos por descobrir. Paisagens a admirar.
E haveria as tascas da beira da estrada. Onde os sabores são mais legítimos, originais e verdadeiros. Muito diferentes, os sabores, das comidas assépticas das áreas de serviço das vias rápidas.
A música acompanhar-me-ia para todo o lado, tornando o trabalho mais leve e as viagens mais curtas.
Num momento atravessaria a Europa e conheceria outros países, outras realidades, outras culturas. As pessoas seriam diversas, mas o desejo de as contactar faria ultrapassar alguns obstáculos, nomeadamente, a língua.
Milhares de quilómetros que espero vir a percorrer se…
conseguir cumprir os meus desejos e conquistar o meu destino!

                                               Severiano Pinhão (Professor de Português do 9º 3)